GDF se prepara para usar volume morto da Barragem do Descoberto

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Pregão para contratar empresa que fará intervenção está marcado para segunda-feira (8/1). Especialistas consideram medida arriscada
 
Apesar de o nível de água da Barragem do Descoberto, que abastece 60% da população do DF, apresentar elevação nas últimas semanas, a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) mantém-se conservadora em suas projeções e se prepara para o pior. Uma das medidas consideradas o “fundo do poço” e reprovada pelo sindicato dos profissionais da empresa pública, o uso do volume morto começa a se tornar realidade: está marcado para segunda-feira (8/1) o pregão eletrônico de contratação da empresa para executar a obra necessária à utilização do recurso. 
 
A previsão é investir R$ 494,5 mil na construção da tubulação especial e realização de testes. O montante vem da verba da tarifa de contingência, liberada em outubro para essa finalidade, pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa). Em nota, a Caesb informou que a previsão é concluir o serviço em maio de 2018, mas o aproveitamento da quantidade deve ocorrer “se vier a ser necessário”.
Apesar do esforço governamental para fazer a obra, o diretor do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos do Distrito Federal (Sindágua-DF), Igor Pontes Aguiar, desaprova a aplicação de dinheiro público para tal finalidade.
 
Ele lembra que o Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) da Secretaria de Saúde de São Paulo relacionou o aumento de casos de diarreia no estado, em 2014, ao abastecimento com a água coletada das partes mais profundas das bacias, onde fica o volume morto. 
 
"Nós entendemos que [o volume morto] não deve ser usado. A gente observou, em outros estados, que, mesmo com empresas e órgãos públicos garantindo a qualidade, foi constatado adoecimento da população."
Diretor do Sindágua-DF, Igor Pontes Aguiar
 
Sujeira
O que determina o volume morto é a posição das tubulações de captação e as vazões de retirada do reservatório, explica o doutor em recursos hídricos e professor da Universidade de Brasília (UnB) Sérgio Koide. Em outras palavras, trata-se da água localizada abaixo da cota mínima operacional e, por isso, faz-se necessária uma intervenção para ser alcançada.
 
Aguiar ressalta que esse nível é mais profundo e, por isso, acumula sujeira, como matéria orgânica e metais pesados. “Diante de uma controvérsia, como a gente fala da saúde da população, o melhor é se programar e se preparar para esse patamar não ser usado de forma nenhuma”, sustenta.
 
Numa situação de emergência, porém, o volume morto do reservatório teria capacidade para garantir água para os brasilienses por apenas um mês, segundo o sindicalista.
Para o doutor em gestão de recursos hídricos e professor da UnB Demetrios Christofidis, o cuidado deve ser redobrado com o tratamento, para essa água chegar até as torneiras dos cidadãos sem apresentar riscos à saúde.
 
O que deve acontecer, lá na estação de tratamento da água, é um reforço na análise da qualidade. O cuidado dos técnicos para verificar se alguma questão anormal está acontecendo com o padrão de potabilidade da água deve ser ampliado"
Demetrios Christofidis, especialista em gestão de recursos hídricos
Já Sérgio Koide avalia não ser necessário a Caesb implementar um sistema diferente do convencional, para liberar o consumo do recurso. “Quando a barragem está muito velha, lá no final da vida útil, tem sedimentos. A do Descoberto não é tão antiga”, afirma. Para ele, “o mais importante é a vigilância constante da qualidade da água que é distribuída à população.”
 
De acordo com Koide, apesar de a chuva dos últimos meses trazer esperança, a situação de escassez hídrica está longe de ser superada. “A tendência é que a gente mantenha o racionamento por todo o ano de 2018. Eventualmente, até outras medidas mais drásticas deverão ser adotadas”, opina.
 
Christofidis acredita que os moradores poderiam ser ainda mais incentivados a economizar água de forma contínua. “Se você aplica multa [como a tarifa extra], está cobrando de alguém que já consumiu. Você tem que preparar o hoje e o futuro com premiações para aqueles que usam [o recurso] racionalmente”, sugere.
 
A obra que trará água do Corumbá deve aliviar o Descoberto. Mas, se não ficar pronta até 2019, o cenário deve piorar ainda mais, segundo Koide. Outras medidas, no entanto, também são importantes, como a construção de uma nova estação de tratamento de água no Lago Paranoá, pois a atual opera em situação emergencial e atende apenas uma pequena parcela da cidade.
 
A qualidade da água do local, inclusive, foi questionada por um médico. Após atender mais de 50 pessoas com infecção intestinal, o endocrinologista Flávio Cadegiani chegou a orientar os pacientes a não usar o recurso da região central de Brasília.
 
Aguiar aponta um outro obstáculo: as captações irregulares. De acordo com ele, o combate ao uso proibido dos mananciais que alimentam o reservatório não tem sido tão efetivo quanto deveria. “A gente sabe de uma série de casos assim. Mesmo nos autorizados, não existe qualquer fiscalização de se a quantidade aproveitada é a mesma prevista”, denuncia. 
 
O que a Caesb diz
Em nota, a Caesb assegurou que “se preocupa sempre com a qualidade da água distribuída” e faz análises operacionais a cada hora, para correção de parâmetros. “Isso dá à companhia condições de oferecer à população uma água de ótima qualidade”, garantiu. A empresa, porém, não informou se já fez ou fará exames especiais com o volume morto.
 
Sobre a vistoria nas fontes da Barragem do Descoberto, a reportagem procurou a Adasa e a Caesb. Até a última atualização desta matéria, no entanto, ambas não haviam retornado o contato.
 
A barragem 
Em dezembro, as chuvas ultrapassaram a média do mês e contribuíram para a recuperação do Descoberto. No último dia 30, o nível do reservatório estava em 29,2% – acima do percentual de 22,4% observado há exatamente um ano. Já nesta sexta (5), o percentual registrado chegou a 33,2%.
 
(metropoles.com, 5.01.18)
 

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